
O ônibus não é essencialmente ruim. Ônibus, na janela e sem lotação, sem estômago cheio e com um bom livro da letra razoavelmente grande, é melhor, muito melhor, que qualquer táxi.
Já li livros inteiros no ônibus, ao longo de várias viagens, sem contar a importância do gosto musical do meu amigo motorista para a formação da minha personalidade tolerante para com o próximo.
Por outro lado, querida leitora, um táxi levemente azarado sempre vai ser pior que o pior ônibus, aquele que você pegou meio-dia de bucho cheio debaixo do sol e teve que ficar muito, muito atenta, e dar umas cotoveladas e bolsadas preventivas, para não levar pinadas indesejadas.
Porque no táxi, você é obrigada a tolerar o outro num nível além, muito além, do que eu mereço. É um constrangimento, o cara tá no carro dele, eu nunca sei se seria indelicado pedir pelo amor de Deus para PELO MENOS baixar o volume do DVD do Bruno e Morrone, ou pelo menos parar de cantar junto, ou, minimamente, maneirar no vibrato e no falsete. E isso é o tipo de dilema que você não resolve lendo o manual de etiqueta da Glória Khalil. Porque eu aposto que aquela felá da mãe já deve ter o carro dela, né, e não tem medo de dirigir, e nem liga para quem é pobre e triste, muito triste.
Mas não foi isso que eu vim desabafar.
Acontece que voltei do trabalho tarde (sexta 13 feelings, ABS VF), não quis pegar ônibus, e o taxista tinha uma amante.
Ele também tinha o DVD no carro, e tocava Bruno e Marrone, e cantava junto, com falsete alternado com voz grossa do Marrone e vibrato. Mas isso nem me constrange mais, sabe, taxista gosta mesmo de DVD no carro, viva e deixe viver0. Agora "amante", cara, é realmente uma novidade.
E AGORA, GLORINHA KHALIL, queria ver tu sair dessa, cabocla!
Daí que eu dei um flagra no taxista e ele ficou super constrangido:
ATTENTION: "T" IS FOR TAXMAN, "A.I." IS FOR "AMANTE INSISTENTE".
T: Alô, (voz alta) amôzim (voz baixa)
A.I.: mimimimmimi (zuada da mulher perguntando alguma coisa)
T: Agora não dá
A.I.: mimimimmimim (os gritinhos da mulher indignada cobrando atenção)
T: Depois (voz alta), amozim (voz baixa).
A.I.: mimi
T: Tô com passageiro (cortando o assunto).
A.I.: mimimimimi
T: Hoje não pode.
A.I.: mimimimimi (a indiscreta da amante indignada e cobrando atenção)
OBSERVE ESSE MOMENTO DA HISTÓRIA, EM QUE O TAXISTA MUDA DE TÁTICA:
- "No".
- mimimi.
- Yes, Yes.
- mimimimimimimmimimimmimmimimimimimimimimmimimimimimimimimimimim.
- No!
SACOU, BLÓDER? Vamos falar em outro idioma!
Será muito mais discreto se a gente se combinar pra mais tarde in english, na base do YES/NO, que ninguém sabe o que é, né?
Eu juro, que nos meus 25 anos de para-raio de doido, no meu treinamento ninja pra não rir no momento em que se dá a marmota e na cara do doido em questão, nada me preparou pra isso. Glorinha Khalil, nem te conto... eu simulei a chamada tosse, muita tosse, pra disfarçar o acesso de riso iminente. A continuar assim, tô fudida, nunca freqüentarei as altas rodas. Não vai ser contraindo matrimônio que entrarei para uma família rica, como se vê.
E, por falar em etiqueta, teve a auxiliar de um antigo emprego meu, gente muito boa, desculpaí, mas eu vou ter que frescar.
Enfim, na hora do almoço, em um bistrô charmosinho que costumávamos freqüentar pra variar o cardápio no fim do mês (3,50 o prato-feito para duas pessoas, com direito a duas frutas e uma mariola – fim de mês), a colega pega a coxinha de frango com a mão e diz:
- Povo burro, só querem comerem tudo com garfo e faca. Tu sabia, que isso é ignorância, que na palestra que eu fui o homem deu exemplo que era antiético. É até antiético comer a coxa e a asa com o garfo e faca. E o pé, e o pescoço, pior.
Sem mais para o momento, subscrevo-me.
Atenciosamente,